A Persistência da Memória , por Carlos Rezende
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A Persistência da Memória

Quando abro a janela, desperto pelo barulho das ondas que açoitam incansavelmente a praia,

o fio imaginário, limite do horizonte e do céu, se desloca e como uma corda de violoncelo distendida ,

soa som agudo, não grave.

Distende, talvez pela força do vento ou pela ausência momentânea da gravidade, soa repetidamente som agudo.

Percebemos um intervalo entre uma distensão e outra,

intervalos não regulares - um metrônomo não serviria a essa marcação.

Nesse intervalo, sinto o eco da onda que açoita a areia. A onda recua e se apresta ao novo açoite.

Enumero esse instante e o próximo e assim sucessivamente.

A distância ameniza o barulho do estrondo das ondas, intercaladas pela distensão incessante da linha do horizonte, misturados aos sons do vento.

A espuma da água se dissolve na areia, incessantemente.

O que vejo e sinto tento representar desenhando um crânio no centro de uma folha retangular rodeado por quadrados tortos em disposição concêntrica:

Nada se parece com o que sinto ver,

o que posso ter, o que devo sentir.

Nada se parece com o que devo ver.

O que vejo é o que posso ter,

que posso ser, que devo sentir.

Tudo se parece com o que devo ser,

percebo que posso ver,

que posso ter, que tento sentir.

Carlos Rezende

2012, fevereiro

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