A Persistência da Memória
Quando abro a janela, desperto pelo barulho das ondas que açoitam incansavelmente a praia,
o fio imaginário, limite do horizonte e do céu, se desloca e como uma corda de violoncelo distendida ,
soa som agudo, não grave.
Distende, talvez pela força do vento ou pela ausência momentânea da gravidade, soa repetidamente som agudo.
Percebemos um intervalo entre uma distensão e outra,
intervalos não regulares - um metrônomo não serviria a essa marcação.
Nesse intervalo, sinto o eco da onda que açoita a areia. A onda recua e se apresta ao novo açoite.
Enumero esse instante e o próximo e assim sucessivamente.
A distância ameniza o barulho do estrondo das ondas, intercaladas pela distensão incessante da linha do horizonte, misturados aos sons do vento.
A espuma da água se dissolve na areia, incessantemente.
O que vejo e sinto tento representar desenhando um crânio no centro de uma folha retangular rodeado por quadrados tortos em disposição concêntrica:
Nada se parece com o que sinto ver,
o que posso ter, o que devo sentir.
Nada se parece com o que devo ver.
O que vejo é o que posso ter,
que posso ser, que devo sentir.
Tudo se parece com o que devo ser,
percebo que posso ver,
que posso ter, que tento sentir.
Carlos Rezende
2012, fevereiro
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