CAT #02
Mista (acrílica, tinta vitral e verniz) sobre shape de skate
80 x 20 cm
Assinado
2012
http://www.flickr.com/photos/marcel0peralta/
Uma poética do olhar sobre a cidade e seus habitantes
Brasigóis Felício *
Marcelo Peralta, arquiteto, formado pela ótima tradição da PUC-GO nesta área, teve a sorte – ou a intuição – de escolher uma profissão que, além de não engessar sua criatividade artística, a estimula, chegando mesmo a ser parceira constante. Assim é que em sua primeira exposição como artista, toma como suporte o skate, que passou de brinquedo esportivo de crianças e jovens a meio de transporte de pessoas a passeio ou deslocando-se a seu trabalho.
Neste olhar mais atento sobre a cidade e seus personagens ele inova, mas também propõe reflexões que, abrangendo conceitos de arquitetura e urbanismo, alcançam a sociologia, em um viés que abarca também o político. Nesta interessante e polivalente mostra individual, de pinturas em acrílico, tendo como suporte – digamos - tábuas de skate, vemos a potencialidade criadora deste artista, de menos de trinta anos de idade, mas com maturidade e visão do fazer artístico que faz prever uma carreira consistente, em seu futuro.
A poética de seu olhar de artista e técnico leva, a quem contemple seus trabalhos, à reflexão de que prédios e equipamentos públicos podem ser e são vistos com olhares diferenciados, a partir de quem com eles convive, e da hierarquia social, ou nível de cidadania a que pertença. Marcelo Peralta ilustra tal pensamento em uma de suas pinturas: nela vemos pessoas vendendo água e balas à margem de um semáforo. É de se supor que este equipamento público é para eles um local de trabalho, não significa para os condutores de veículos.
O modo como são vistos os equipamentos, monumentos e prédios públicos é relativo, como tudo. Depende da relação de posse ou uso, não sendo a mesma as vivências e percepções do valor estético, simbólico ou social dos espaços. Cada pessoa define a relação de grandeza desses valores de acordo com sua visão individual, explica o artista. Até porque "O que se entende por cultura nasce da soma de todas as individualidades".
Para o pichador, superfícies planas, de prédios, muros, casas ou pontes são apenas suportes para seus atos vandálicos, que se querem intervenções criativas. Criação de que? Muitos haverão de se perguntar. A resposta, aceitável ou não, nem os contumazes pichadores podem ou querem saber. Afinal, já o disse o filósofo Ortega Y Gasset – "O Homem é ele mesmo e suas circunstâncias". A contemplação atenta dos trabalhos desta mostra haverá de constatar a presença de uma poética, e de um olhar profundo, ao mesmo tempo irônico e investigativo, por parte deste artista.
Sua pintura "Nossa Senhora do Sagrado Coração de Maria Gasolina" é reflexão instigante, de como o automóvel, de equipamento necessário à mobilidade das pessoas, passou a ser extensão do ego ou da personalidade, símbolo de status e competição social – passando com isto a ser causa de desastres anunciados, trombadas econômicas e conflitos, nas cidades vertiginosas e trepidantes. Em boa hora o cenário das artes plásticas feitas em Goiás vem ser enriquecido com a participação deste jovem e talentoso arquiteto e artista.
* Brasigóis Felício é escritor e crítico de arte



